

Às vésperas do Dia Nacional de Combate ao Fumo, em 29 de agosto, oncologista reforça que não existe nível seguro de exposição ao tabaco e alerta para o avanço do uso vapes
O Rio Grande do Norte deve registrar cerca de 520 novos casos de câncer de traqueia, brônquios e pulmão, segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Desse total, aproximadamente 140 diagnósticos são esperados em Natal. A doença é a principal causa de morte por câncer no estado, evidenciando sua alta letalidade e o impacto na saúde pública.
O cenário preocupa em um momento em que o Brasil voltou a registrar aumento no número de fumantes adultos pela primeira vez desde 2007, ao mesmo tempo em que cresce o consumo de cigarros eletrônicos entre adolescentes. Embora a população mundial esteja fumando menos, a epidemia do tabaco está longe de terminar. O mais recente relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostra que o número de usuários de tabaco caiu de 1,38 bilhão, em 2000, para 1,2 bilhão em 2024.
Em Natal, a prevalência de fumantes caiu pela metade em quase duas décadas, passando de 13,3% da população em 2006, início da série histórica do Ministério da Saúde, para 6,6% atualmente. Apesar desse avanço, os indicadores nacionais acendem um sinal de alerta. Dados do Ministério da Saúde mostram que a prevalência de fumantes adultos no país aumentou de 9,3% para 11,6% em 2024.
Em paralelo a esse cenário, cresce também a busca por tratamento para abandonar o cigarro. Dados do programa Fumo Zero, da Amil, mostram que o número de atendimentos a fumantes aumentou 172% entre 2024 e 2025, passando de 198 para 538 beneficiários, quase três vezes mais em apenas um ano. Em 2026, considerando apenas os quatro primeiros meses, já foram registrados 286 atendimentos, indicando a manutenção da alta demanda e uma tendência de crescimento.
Para a oncologista do Hospital Promater, Danielli Matias, não existe um nível seguro de exposição ao tabaco porque não há quantidade mínima ou tempo de exposição considerados seguros. Mesmo quem fuma pouco ou deixou o cigarro há anos continua apresentando um risco maior de desenvolver doenças quando comparado a quem nunca fumou, porém, a especialista explica que interromper o tabagismo traz benefícios imediatos e também reduz os riscos a longo prazo.
“Parar de fumar ajuda a reduzir o risco de doenças, embora esse benefício dependa do tempo de exposição e do período desde a cessação. Esse risco diminui gradualmente. Em curto prazo, observamos melhora da vitalidade da pele e das mucosas, recuperação do paladar e do olfato e aumento da disposição física. Já em longo prazo, há melhora da capacidade respiratória e cardiovascular, além da redução do risco de desenvolver diversos tipos de câncer”, aponta.
A médica alerta que alguns sintomas do câncer de pulmão podem passar despercebidos, especialmente entre fumantes. A tosse seca persistente é um dos principais sinais e muitas vezes acaba sendo encarada como algo normal por quem fuma. Tosse com sangue também pode ocorrer, além de falta de ar e dor no peito, principalmente em estágios mais avançados da doença.
Além do cigarro convencional, há preocupação com a popularização dos cigarros eletrônicos entre os mais jovens. Entre adolescentes de 13 a 17 anos, 29,6% já experimentaram vape. Segundo Danielli Matias, a falsa percepção de que o dispositivo é menos prejudicial pode aumentar os riscos à saúde.
“O vape pode conter substâncias até mais tóxicas do que o cigarro tradicional. Além da nicotina, esses dispositivos podem apresentar metais pesados, como chumbo e cromo, associados ao desenvolvimento do câncer. Também há evidências de que o dano aos alvéolos pulmonares pode ocorrer de forma mais rápida com o uso dos cigarros eletrônicos”, alerta.

